Era uma vez um barco. Era um barco de mil e uma cores, de qual muitos não gostavam à primeira vista, mas que outros, após muitos olhares, se conseguiam habituar à diversidade de padrões, compreendendo e até gostando de algumas das suas peculiaridades.
Essa navegação, temida por muitos e adorada por tão poucos, nunca tinha velejado em águas profundas, apenas se tinha limitado a algumas viagens junto à costa, nunca se conseguindo afastar muito do seu ponto de partida. Como tal, era grande a sua ânsia de aventuras, de novas conquistas, de novas experiências, e aguardava ansiosamente o dia em que pudesse deixar a terra seca e navegar no grande oceano azul até encontrar o seu lugar, o seu porto seguro.
Certo dia, o barco decidiu que era tempo de se fazer à vida, e lançou-se, destemidamente, a novas terras, como nunca antes o tinha feito. Longos foram os dias em que não se avistava vival’ma, em que o barco esteve para desistir da sua viagem e regressar para o local de partida, mas, mesmo assim, manteve-se fiel a si e aos seus sonhos e continuou à procura da terra prometida.
Durante esta sua jornada, o barco deparou-se com uma ilha que à primeira não parecia ser aquilo pelo qual tanto ansiava. De qualquer das formas, conseguiu atracar temporariamente no seu porto, recolher mantimentos, tratar os tripulantes feridos, ser feliz por um efémero momento.
Entretanto, quando menos esperava, perdeu-se de amores pela terra onde estava, e pediu permissão para permanecer lá, não a curto prazo, mas para tentar estabelecer algo mais para além da química, se é que a um barco é dada autorização para amar uma ilha.
Nesse mesmo momento, a ilha afastou-se do barco, colocou-se num pedestal do qual não queria sair, e ordenou ao barco que chamasse a sua tripulação para nele embarcar e se afastar um pouco dela, porque o que sentia pelo barco não era mais do que uma coisa casual, que já devia ter sentido por tantos outros.
Mesmo tendo plena consciência que conseguir cumprir aquilo que tanto desejava era meramente utópico, o barco esteve parado, vezes sem conta, junto à costa da ilha que o tinha enfeitiçado. Fizesse chuva, fizesse vento, estivesse tempestade, fosse atacado ou não pelas gentes dessa ilha, ele ficava lá, imóvel, à espera que lhe fosse dada permissão para atracar e difundir-se com o povo existente nessa ilha, agora recôndita, inatingível e incompreensível.
Nunca ninguém compreendeu como é que o barco, após tantas batalhas lutadas em vão, aproximações seguidas de afastamentos, tantos devaneios, tanto sofrimento, após ter sido atacado e usado vezes sem conta conseguia manter-se no mesmo local, como se nada fosse, à espera que um dia o seu sonho se realizasse. No seu íntimo, mantinha-se fiel aos seus desejos, e aos seus sentimentos, mantinha-se fiel a si por muito que isso implicasse o desgaste do seu barco, e as velas ficassem gastas, e rompidas, e o seu barco estivesse cada vez mais exausto de lutar.
Com o tempo, esse sonho irrealizável acabou por se tornar numa ilusão idiota, e, quando o mastro principal se partiu em dois, o barco deixou de lutar. Não valia a pena, simplesmente. Era tempo de voltar a casa, e o barco sabia-o muito bem (já o sabia há muito tempo, mas negar a realidade era um dos seus fortes, talvez por ingenuidade, talvez por simples estupidez mórbida).
Era tempo de reparar os danos sofridos depois de tanto tempo à espera para no fim fracassar, e partir para outras conquistas. Novas conquistas, novas gentes, novas amizades, novas paixões. Há muito tempo que ele não se deixava invadir pela novidade e já era tempo de continuar com a sua jornada.
Era tempo de reparar os danos sofridos depois de tanto tempo à espera para no fim fracassar, e partir para outras conquistas. Novas conquistas, novas gentes, novas amizades, novas paixões. Há muito tempo que ele não se deixava invadir pela novidade e já era tempo de continuar com a sua jornada.
No seu íntimo, o barco dizia que a ilha um dia iria morrer com a sua solidão e voltar atrás na sua decisão, tentar recuperar o laço criado com o barco das mil cores. Mas, na verdade, o barco nunca acreditou que isso fosse acontecer, pensava que aquele era um capítulo acabado na sua vida. E seguiu com a sua vida, era isso que devia ser feito. No entanto, os outros barcos que souberam da história diziam-lhe que a ilha, quando visse perdida a sua posse, ia tentar enfeitiça-lo outra vez, para poder tê-lo perto, mas mantê-lo longe, como sempre o tinha feito.
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Alguns meses se passaram desde que o barco passara pela última vez na ilha amaldiçoada. Agora, o barco tinha plena noção que o feitiço que tanto tempo o tinha prendido não exercia o mesmo efeito, e que agora se sente muito mais forte do que na altura. No entanto, durante o seu novo trajecto, era impossível não passar, nem que ao de longe, pela terra que ele tanto tinha idolatrado. Quando o fez, e ao contrário do que esperava, a ilha chamou-o outra vez, mesmo ciente do que já lhe tinha causado.
A tentação nasce connosco, impele-nos sempre a fazer aquilo que nos traz felicidade a curto prazo (supostamente), mas o verdadeiro carácter de uma pessoa está em saber resistir à tentação, ser racional e continuar com a vida, à procura da verdadeira felicidade, e deixar-nos de utopias.